O dia 31 de dezembro, tão planejado, acabou não acontecendo da forma como deveria. Ao invés de uma grande festa na chácara em minha cidade natal com a presença do meu namorado e dos melhores amigos, em um dado momento, éramos apenas ele e eu sem idéia de onde passar a virada.
Estava muito preocupado. Tinha prometido uma festa da virada, fogos de artifício e muita bebida. A cabeça pesava, a ansiedade dominava o corpo. A fome sumiu. Ele percebia meu estado e me tranqüilizava dizendo que estava tudo bem. Eu, perfeccionista, não dava ouvidos.
O resgate veio, mas veio a cavalo. Um amigo nos chamou para irmos até uma cidadezinha muito pequena cerca de 30 minutos de distância. E esse era o programa que nos restou naquela que estava fadada a ser uma das piores comemorações de virada. Não porque estava odiando tudo, mas sim porque estava preocupado com meu namorado, queria que ele se divertisse como nunca, queria tirar o estigma do reveillon anterior dele, que ele mesmo me disse não ter sido dos melhores.
Acabamos tomando umas doses de vodka, inclusive ele que não bebe. Uma amiga e seu namorado apareceram para estimular a bebedeira. No fim, em cinco, acabamos com a garrafa em questão de minutos. Não era muita coisa, todo mundo bebeu pouco, mas foi o suficiente para levantar o astral e dar coragem para encontrar meu amigo em um posto de conveniência para entrar na rodovia.
Levemente alcoolizados tomamos nosso banho. Ele usou a bata que eu dei de Natal. Estava lindo, eu acertei. No entanto, no ritmo da preparação, ao invés de encontrarmos nosso amigo às 22h30min como combinado, chegamos às 23h40min e mesmo assim seguimos viagem. No carro da frente, meu amigo com três amigas. No carro de trás, eu e ele apenas. O banco traseiro comportando o isopor com a bebida, ele dando as primeiras goladas em uma garrafinha de vodka com limão.
As luzes da cidade foram ficando cada vez mais longe conforme entrávamos cada vez mais fundo na estradinha sinuosa. Em ambos os lados, durante o dia, o cenário é dos mais bonitos. No entanto, naquela noite de céu aberto e lua cheia, restaram apenas as sombras das árvores, as estrelas e pequenos sinais de civilização traduzidos em janelas acesas de pequenas fazendas. A rodovia estava completamente vazia.
O rádio ia narrando os últimos minutos de 2009 com humor enquanto nós dois ríamos de uma piada ou outra. Terminando a primeira garrafa, ele arremessou pela janela e eu ouvi o vidro quebrar. Assustei com aquela demonstração tão inesperada de rebeldia, de emoção, de impulso. Justo ele que, em sete anos que o conheço, estava vivendo o ano mais racional de sua vida. O ano do autocontrole.
Enquanto isso eu procurava focar na rodovia. Ele abriu outra garrafinha. Os minutos iam passando, faltavam dois, faltava um. E assim que a turma no rádio gritou o “Feliz 2010!” seguido de uma música de comemoração, lá ao fundo do vale contornado pela estrada estava uma das minúsculas cidades que faziam passagem até o nosso destino, parecendo morta e abandonada.
No entanto, de repente, uma reação. Vida! O céu limpo e estrelado explodiu em fogos coloridos. A cidade estava mais viva do que nunca.
E de repente todo o mau humor passou, dando lugar para uma emoção incrível exteriorizada por um sorriso largo e olhos cheios de lágrimas. Sem abrir a boca, algo raro em se tratando de mim, observei os vários minutos explodirem no céu preto há uns 10 km de distância. Ele percebeu minha emoção e afagou minha nuca com afeto enquanto eu segurava o volante com força e pensava no ano que passou.
2009 finalmente tinha acabado. O ano que inaugurei com angústia e depressão, que quase fiquei cego, que perdi minha melhor amiga desde a adolescência precoce, Nina, minha cachorra e durante anos a única conhecedora do detalhe mais básico da minha existência, cujos pelos usava quando criança para enxugar lágrimas. 2009 foi o ano em que fiquei cego durante 30 dias, o ano em que fiz três cirurgias por erro médico. 2009, o ano em que implorei para minha terapeuta um caminho, porque não encontrava em mais ninguém ao meu redor. O ano em que não tive aumento, mas trabalhei o dobro. Era o fim daquele ano.
O ano mais importante da minha vida.
As lágrimas não vieram pelo alívio de um ano ruim que ficou para trás. Elas vieram porque, de repente, tudo isso não importava mais. 2009, na verdade, foi o ano em que mais cresci, o ano em que comecei, finalmente, o alicerce daquilo que vai se tornar o eu de um amanhã brilhante. O ano em que fui obrigado, por forças externas, a desacelerar, a enxergar internamente quando o exterior me era apenas uma mancha branca.
E quando a mancha branca sumiu dando lugar às cores vibrantes da primavera que acabara de chegar, uma nova etapa se iniciou. Uma etapa de aumento da minha influência no meu trabalho, onde hoje sou peça fundamental. Um momento em que passei a enxergar meus pais como pessoas e descobri um amor enorme por ambos que tinha esquecido lá nos meus doze anos.
Em 2009 eu fui obrigado, e continuo insistindo nesse movimento, a voltar para uma essência perdida, para algo que para mim um dia foi tão real e quando me dei conta tinha se tornado a Terra do Nunca. 2009 foi o ano em que deixei para trás a coisa mais imbecil que me segurava, me prendia e não me trazia nada em troca: deixei de ser o tão almejado (e contemporâneo) "blasé way of life". Depois de 30 dias cego, quando você volta a ver o rosto dos seus amigos aliviados por você, o carão some. Ele não resiste já que na realidade não faz parte de você.
E assim, como movimento final, comecei a namorar. Falta compreender o significado real desta última tacada de 2009, se é mais um movimento de fechamento de um ciclo ou abertura de um novo, já que este namoro especificamente está sendo cheio de aprendizados. No entanto, confesso que até isso está sendo interessante de compreender. Quando olho para o lado e o vejo do jeito que vi naquela estrada, apenas se divertindo com o momento, dando risada enquanto me olha nos olhos, falando com os amigos de forma bem humorada e depois me contando empolgado o que eles disseram no telefone, tenho certeza de que vale a pena.
E os fogos foram se tornando mais espaçados ao mesmo tempo em que a rodovia deu lugar a uma rua que cortava o centro da cidadezinha. Nosso destino ainda estava uns cinco minutos adiante, mas a quebra repentina de cenário me trouxe de volta para a realidade. Tinha decidido, finalmente, a minha meta para o ano: se em 2009 redescobri o meu valor, em 2010 vou me amar acima de tudo. E fiquei feliz com aquela decisão.
Feliz 2010.
Mike
Mais um retorno.
5 horas atrás





8 comentários:
Sou fã incondicional dessas mudanças. Acho que falei isso outras vezes. Como eu disse no post... nada como viver sob as proprias regras e poder quebra-las ou reescreve-las quando necessário.
Seu 2010 será do jeito que sonhou!
Porque só você pode fazer com que ele seja assim.
=)
Beijão!
E no momento certo vc se deu conta do que 2009 representou pra vc e do que 2010 vai representar. Eu lhe desejo muitas felicidades nesse novo ano. E que as coisas boas q aconteceram em 2009 prosperem a cada ano! Bjs!
sou fã incondicional é do seu blog
adorei a vida explodindo diante vcs
pois então... 2010 para vc! =D
2010 será o NOSSO ano então. Eu tbm decidi que esse ano eu vou me amar acima de tudo e vou tentar melhorar como pessoa em todos os aspectos... O seu ano novo ainda foi melhor que o meu... Realmente bem sem graça e não fiz nada... Enfim... :)
Felicidades.
Feliz Ano Novo!
Bjs
Oi, querido!!!
Quanto tempo, né??
Em primeiro lugar, um ótimo 2010 pra ti!!! Tenho certeza que esse ano vai ser ótimo!!!
Em segundo, só pra reafirmar o quanto gosto do teu blog... Fazia séculos q não passava aqui, e gosto muito de saber o que tu anda fazendo. Além dos textos serem sempre ótimos. ;)
Em terceiro: to chocado!!! Tava falando com o g.boy há pouco no msn - depois de muito tempo -, e ele me contou a novidade!!! Apesar de não ter acompanhado teu blog antes, só depois da minha volta, sempre li ele falando sobre ti, e sempre achei muito legal a amizade de vocês, dava pra sentir que era amizade mesmo. Mas, quando ele me falou, passado o "choque" inicial, fiquei muito feliz por vocês, e realmente estou torcendo pra que dê certo.
Um beijão pra ti!! Te cuida!
PS: Depois de milênios, postei...
Recomendo rever "História Sem Fim"...
Fala, rapaz!
É engraçado, os nossos piores anos, aqueles em que mais trabalhamos, não temos tempo para nada, tudo dá errado, etc, são aqueles em que mais aprendemos no final!
A princípio eu achava que meu 2009 tinha sido péssimo, mas num balanço final, foi maravilhoso! Espero que 2010 seja tão bom quanto! Tirando, é claro, a parte de trabalhar muito...
beijo!
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