quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um mês

Desde que voltei para São Paulo após a novela que foi a situação do meu olho (e que ainda não acabou definitivamente, diga-se de passagem, mas pelo menos cego eu não estou), não sou a mesma pessoa. É incrível como sua vida pode mudar completamente de uma hora para outra e assim foi quando a primeira cirurgia não deu certo.

Minha vida não mudou pelas conseqüências físicas da cirurgia, mas sim pela introspecção que me foi forçada ao longo de um mês de cegueira. Eu não podia ler, não podia usar aparelhos eletrônicos que emitissem luz, não conseguia ficar muito tempo no sol, não podia usar computador, celulares, nem nada que tivesse telas. Usava óculos escuros inclusive durante a noite. O que me restou? Sentar na porta da frente, sentir o vento no rosto, acender um cigarro e pensar. Pensar muito. Pensar durante 720 horas seguidas.

No começo você pensa sobre o que vai acontecer. Pensa no seu tratamento e nos 14 medicamentos diários, entre colírios, pílulas e injeções. Pensa em todas as consultas agendadas, até mesmo com a benzedeira. Em alguns momentos se desespera com o medo de ficar cego e tenta imaginar sua vida sem luz. Eu, um publicitário, cuja vida é pautada na imagem.

Depois você se revolta. Os remédios que não funcionam, os médicos que erraram, o seu egoísmo de querer fazer tudo ao mesmo tempo. É muito fácil perder o controle nesse momento, jogar tudo para o alto. Você sente o ambiente à sua volta, mas não o vê; tem pernas, mas não pode correr; tem dinheiro, mas não pode gastar; tem sentimento e ninguém para dividir.

Por fim aceita sua condição e luta para melhorar. Nessa hora os santos que você acredita se materializam e você passa a crer fielmente no auxílio de todos eles. Apenas nesse momento consegui ter calma e esperança e foi a partir deles e de Nossa Senhora Aparecida, imagem que tinha tatuado no braço no mês anterior, que progredi da forma como progredi em uma semana de tratamento.

Porém, entre um desespero e outro, você cansa e reflete. Reflete sobre a vida. O fato de estar na cidade natal, de dormir todos os dias no seu antigo quarto e acordar de manhã com seus cachorros traz uma sensação familiar que aos poucos substituem a saudade de São Paulo por um sentimento de aconchego. De repente, não é tão desesperador acordar todos os dias, sentar no batente da porta e fumar.

E de todo esse processo de introspecção saiu um novo homem. E para um novo homem, uma nova vida.

O processo de retorno para São Paulo não foi fácil. Tinha ficado dois meses sem terapia e quando voltei para o consultório foram alívio e pranto desregrados, mesmo porque estava ainda muito traumatizado com os eventos do último mês.

Além de voltar para a terapia, chamei a diretora da minha área na agência em uma sala e expliquei que estava lá para crescer e que queria mais responsabilidades para que, posteriormente, pudéssemos discutir uma promoção. Ela topou e cumpriu com a parte dela, me encheu de trabalho.

Na vida pessoal, quando menos esperava e bem no momento em que mais reclamava que precisava me conectar com alguém, que sentia que as minhas relações eram vazias, uma luz me fez entrar no MSN, no mesmo dia da terapia fatídica. Lá, meu namorado estava do outro lado. Ele me chamou no MSN. Conversamos agradavelmente e ele me disse que vinha a São Paulo, já que queria me ver.

Só que ele não era meu namorado. Ele era apenas meu amigo.

E cá estamos nós, 26 de novembro de 2009. Um mês depois. Um mês de aprendizado, de sexo bom, de parceria. E pela primeira vez tive um mês inteiro de paz em um relacionamento. Claro que já tivemos uma ou outra discussão, mas sempre em cima de expectativas e alinhamento das vontades. Nunca ele me deu motivos para desconfiar de nada, assim como eu. Simples assim: sem ansiedade, sem medo, só curtindo os bons momentos juntos.

É estranho para mim, confesso.

Mas é bom, sem dúvida nenhuma é bom.

E é mais uma representação de como sua vida vira de cabeça para baixo em questão de minutos, como ciclos abrem e fecham quando precisam e como passamos de fase nesse jogo universal.

O que vai acontecer daqui para frente ainda é parte do jogo, está além da tela preta. Fato é que um mês equivale a 25% de tempo do meu relacionamento mais longo, já que sempre tive namoros curtos e intensos; e eu não me sinto desgastado, pelo contrário, me sinto renovado. Tenho alguns problemas, claro, expectativas não atendidas, assim como ele deve ter as dele. Mas será que isso não é sinal de maturidade? Administrar as expectativas em detrimento de algo maior?

Acho que sim. Talvez essa seja a grande lição.

Porque achava estranho o fato de que mesmo namorando alguém que mora longe e que não controlo os passos ainda assim consegui ter uma performance outstanding aprovando duas campanhas com louvor com um cliente difícil. Era ainda mais estranho conseguir resistir o dia inteiro sem falar com ele o tempo todo. E mais incrível que eu conseguisse entender que aquilo tudo não era ansiedade e sim o peso da saudade. Uma sensação gostosa e uma boca brilhante com um gostinho doce que me acorda nas manhãs que dormimos juntos.

Porque gostamos de dormir abraçados, sabe? Foi assim que o beijo rolou, lembra?

E daí eu entendi que de estranho não tinha nada. Que o estranho era ficar obcecado e desconfiado, ativar a defensiva e achar que ninguém presta. E isso aconteceu todas as outras vezes. Acho que nunca estive verdadeiramente em um relacionamento.

Por isso agora é diferente. Esse relacionamento me dá vontade de crescer, de ganhar chão, de ser o melhor publicitário do mundo. Porque preciso do dinheiro! Porque ele ouve quando conto os dilemas dos meus clientes e os meus próprios dilemas de pegar um produto bosta e transformá-lo num must have no intervalo de Viver a Vida.

E é verdade gente, ELE OUVE QUANDO EU CONTO! Assim como eu adoro todas as vezes que ele tira as minhas dúvidas sobre os pratos sofisticados que ele sabe fazer e que eu não tenho idéia de como faz. Assim como ontem à noite levei meu laptop para a cozinha e deixei ele me observar na webcam enquanto cozinhava. E eu observava ele enquanto ele cozinhava no restaurante, vestido de chef, com o chapéu caído do lado, olhos azuis e barba feita.

Quinta-feira passada ele chegou em São Paulo para passar o feriado do Dia da Consciência Negra comigo. Naquele dia à noite cheguei cansado do trabalho e deitei no sofá da sala. Ele levantou e deitou sobre mim enquanto eu reclamava sobre o dia corrido. A campainha toca e Mari entra, diz que tem que ir para o litoral com o namorado, mas teme o trânsito, então decidiu fazer uma horinha.

No fim, Mari acabou não indo para o litoral. O namorado dela e o irmão dele foram lá para casa. Meu irmão chegou pouco depois. Pedimos três pizzas e ficamos conversando na sala. Comemos, rimos. Mari e o namorado nas poltronas, eu e g.boy no sofá, meu irmão e o cunhado de Mari nas cadeiras. Em roda, falamos bosta a noite inteira. Quando todos foram embora, já na noite alta, continuamos eu e g.boy conversando sobre a vida.

Duas coisas naquela noite que nunca aconteceram comigo: uma reunião daquele tipo e um namorado que conversa. Isso porque ele diz que é quieto, mas que não entende porque comigo é diferente.

Se alguém souber o por quê, eu ia adorar saber! ;-P

Entendi nesse mês que um relacionamento não é TER alguém, TER um namorado ou SER paparicado ou SE SENTIR amado. Isso tudo é egoísta demais e não leva a um relacionamento saudável, muito menos duradouro. E todos os meus relacionamentos até então foram assim.

Na verdade, e eis aqui o grande segredo, ter um relacionamento é querer conhecer a pessoa na mais profunda intimidade. É uma curiosidade natural. É querer que ela cresça, seja feliz, conquiste tudo aquilo que almeja. E estar ao lado dela para dar suporte e transformar os objetivos dela nos nossos objetivos. Claro, admitindo que ela entenda isso também e concilie os objetivos dela com os seus.

Estamos tentando fazer isso e confesso que é mais legal. É melhor que ficar mal e desconfiando de tudo. Minha terapeuta acha que essa teoria toda define outra coisa, um sentimento. Eu ainda não sei se é exatamente nos moldes do que ela diz. Mas que eu quero muito que aquele moleque gostoso, lá longe, se torne o melhor chef do mundo. Ah, isso eu quero!

10 comentários:

G. disse...

E sim, vc me faz falar. Mas ao mesmo tempo vc me faz perder a fala.

=)

Esse mês naum foi soh gostoso, e vc sabe disso. Esse mês foi algo mto maior, mto mais inacreditável, mto diferente, mto especial, mto desejado e finalmente alcançado. E sabe o q me deixa ainda mais feliz? Eh soh o começo!

Pq vc tb vai chegar lah tb. E eu vou estar ao seu lado.

Brigado.

G.boy (nostálgico, naum?)

M. disse...

Man,

Mudanças assim, nos jogam lá pra frente e dá a sensação de que realmente estamos vivos. E de como a vida é maravilhosa.

Bjão!

RAFAEL disse...

Dentro deste post todo, existe uma verdade que define as suas novas sensações...VC CRESCEU FIOTE...só isso, acabou a inocencia da pós adolescencia, que em alguns beiram os 30 anos.

VC está num processo de maturidade, fisica e sentimental...e isso qdo bem aproveitado, como vc tem feito, traz essa sensação de felicidade.

abração.

M. disse...

Então... tenho algumas idéias, mas ainda falaremos sobre essas viagens =)

Beijão Mike.

Lú - RJ disse...

Sorriso no canto do rosto e lágrima nos olhos! Porque me sinto muito feliz quando leio sobre a felicidade de vcs! Muito mesmo! Amo!!!

Bj Grande!

Mr. T disse...

Lu falou tudo... To com os olhos cheios de lágrimas... Numa felicidade por vcs que eu até to estranhando, de tão intensa... E só salientando o que vc perguntou (pq vc mesmo ja respondeu), ele FALA com vc pq se sente à vontade, pq vcs são íntimos... A intimidade de vcs veio antes do relacionamento, por isso ele é tão intenso em tão pouco tempo, por isso ele só está trazendo o melhor dos dois à tona... E que seja assim por muitos e muitos meses... Parabéns meus amores... Bjão

Alexandre Lucas disse...

Continuo estimando melhoras =D

Eduardo disse...

É engraçado como parece que todos passamos pelas mesmas fases de crescimento e aprendizado!! E eu concordo com vc qdo diz que administrar as expectativas em detrimento de algo maior é sinal de maturidade. Acho q é aí que o relacionamento ganha forças, pq é ótimo viver os momentos de paixonite aguda e romantismo desvairado, contudo a relação não consegue sobreviver a longo prazo baseada nisso. Ela precisa de racionalidade. Enfim, este post parece muito com oq eu escreveria há alguns anos...rsrs E a tendência é melhorar cada vez mais! adorooo!! :D

Fabiano (LicoSp) disse...

Legal ver que você esta bem e principalmente passou bem por todo este furacão na sua vida. Dizem que o progresso só acontece depois de uma revolução e isso foi exatamente o que aconteceu com você. As vezes penso se eu não precisaria de uma revolução assim na minha vida, embora não deseje o que aconteceu contigo para ninguém, como uma forma de me chacoalhar para alguma decisão no que fazer pro futuro.

Quanto ao relacionamento, você esta certíssimo, amar não é TER o outro, mas SER do outro e viver o amor intensamente. São poucas as pessoas que entendem isso, infelizmente.

Que tudo de melhor continue acontecendo na sua vida.

bjs

Candy disse...

Isso foi lindo.