segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Como o cigarro é uma droga filha-da-puta...
Olha só que loucura. Estou me sentindo bem agora, com vontade de fumar às vezes, mas estou super bem e, definitivamente, sem a montanha russa aí debaixo.
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Estou no primeiro dia do meu desafio auto-imposto de ficar sete dias sem fumar. Meu objetivo é entender como o cigarro influencia na minha imunidade e ver as reações do meu organismo.
Confesso que estou há algumas horas (eu disse HORAS) sem fumar e minha cabeça já está completamente virada do avesso. Sinto calafrios, estou suando mais que o normal e a cada cinco minutos eu tenho aquele momento "vou fumar! ops, não posso!", o que irrita ainda mais.
Ainda não senti a queda de concentração e dores de cabeça, mas sem dúvida nenhuma estou sendo seriamente impactado no humor. Segunda-feira geralmente é um dia que eu acordo de muito bom humor, gosto da segunda-feira. Mas hoje sinto que tenho muita raiva dentro do peito.
O cigarro faz maravilhas nessa área. Quando você se sente inseguro, ansioso, quer soltar os cachorros em cima de alguém ou simplesmente está triste, com vontade de chorar, tudo que você precisa é de um cigarro. Ele estabiliza seu humor, faz com que você não solte os cachorros em cima de ninguém e mais do que isso, te acalma para que você não diga às pessoas aquilo que você REALMENTE PENSA sobre certas atitudes e comportamentos.
Porque hoje estou assim: senti, contei. Senti, gritei. Senti, desabafei. De trabalho a namoro, ninguém está imune. Se você tinha alguma dúvida sobre o que eu penso de verdade sobre você, a hora de perguntar é agora, porque estou especialmente venenoso. E todo mundo sabe, a verdade é o mais poderoso dos venenos.
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Não estou bem. Só posso dizer que não estou bem.
Estou triste...
Não sei exatamente, ou melhor eu até sei algumas coisas, mas sei lá, estou me sentindo sozinho...
Preciso da minha terapeuta, não posso tomar decisões antes de falar com ela amanhã porque não estou no meu estado completamente normal.
O que eu odeio é essa sensação de que as emoções que os cigarros sempre controlam agora estão livres na montanha-russa...
Maldita semana que eu fui escolher para parar com essa merda...
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Um mês
Minha vida não mudou pelas conseqüências físicas da cirurgia, mas sim pela introspecção que me foi forçada ao longo de um mês de cegueira. Eu não podia ler, não podia usar aparelhos eletrônicos que emitissem luz, não conseguia ficar muito tempo no sol, não podia usar computador, celulares, nem nada que tivesse telas. Usava óculos escuros inclusive durante a noite. O que me restou? Sentar na porta da frente, sentir o vento no rosto, acender um cigarro e pensar. Pensar muito. Pensar durante 720 horas seguidas.
No começo você pensa sobre o que vai acontecer. Pensa no seu tratamento e nos 14 medicamentos diários, entre colírios, pílulas e injeções. Pensa em todas as consultas agendadas, até mesmo com a benzedeira. Em alguns momentos se desespera com o medo de ficar cego e tenta imaginar sua vida sem luz. Eu, um publicitário, cuja vida é pautada na imagem.
Depois você se revolta. Os remédios que não funcionam, os médicos que erraram, o seu egoísmo de querer fazer tudo ao mesmo tempo. É muito fácil perder o controle nesse momento, jogar tudo para o alto. Você sente o ambiente à sua volta, mas não o vê; tem pernas, mas não pode correr; tem dinheiro, mas não pode gastar; tem sentimento e ninguém para dividir.
Por fim aceita sua condição e luta para melhorar. Nessa hora os santos que você acredita se materializam e você passa a crer fielmente no auxílio de todos eles. Apenas nesse momento consegui ter calma e esperança e foi a partir deles e de Nossa Senhora Aparecida, imagem que tinha tatuado no braço no mês anterior, que progredi da forma como progredi em uma semana de tratamento.
Porém, entre um desespero e outro, você cansa e reflete. Reflete sobre a vida. O fato de estar na cidade natal, de dormir todos os dias no seu antigo quarto e acordar de manhã com seus cachorros traz uma sensação familiar que aos poucos substituem a saudade de São Paulo por um sentimento de aconchego. De repente, não é tão desesperador acordar todos os dias, sentar no batente da porta e fumar.
E de todo esse processo de introspecção saiu um novo homem. E para um novo homem, uma nova vida.
O processo de retorno para São Paulo não foi fácil. Tinha ficado dois meses sem terapia e quando voltei para o consultório foram alívio e pranto desregrados, mesmo porque estava ainda muito traumatizado com os eventos do último mês.
Além de voltar para a terapia, chamei a diretora da minha área na agência em uma sala e expliquei que estava lá para crescer e que queria mais responsabilidades para que, posteriormente, pudéssemos discutir uma promoção. Ela topou e cumpriu com a parte dela, me encheu de trabalho.
Na vida pessoal, quando menos esperava e bem no momento em que mais reclamava que precisava me conectar com alguém, que sentia que as minhas relações eram vazias, uma luz me fez entrar no MSN, no mesmo dia da terapia fatídica. Lá, meu namorado estava do outro lado. Ele me chamou no MSN. Conversamos agradavelmente e ele me disse que vinha a São Paulo, já que queria me ver.
Só que ele não era meu namorado. Ele era apenas meu amigo.
E cá estamos nós, 26 de novembro de 2009. Um mês depois. Um mês de aprendizado, de sexo bom, de parceria. E pela primeira vez tive um mês inteiro de paz em um relacionamento. Claro que já tivemos uma ou outra discussão, mas sempre em cima de expectativas e alinhamento das vontades. Nunca ele me deu motivos para desconfiar de nada, assim como eu. Simples assim: sem ansiedade, sem medo, só curtindo os bons momentos juntos.
É estranho para mim, confesso.
Mas é bom, sem dúvida nenhuma é bom.
E é mais uma representação de como sua vida vira de cabeça para baixo em questão de minutos, como ciclos abrem e fecham quando precisam e como passamos de fase nesse jogo universal.
O que vai acontecer daqui para frente ainda é parte do jogo, está além da tela preta. Fato é que um mês equivale a 25% de tempo do meu relacionamento mais longo, já que sempre tive namoros curtos e intensos; e eu não me sinto desgastado, pelo contrário, me sinto renovado. Tenho alguns problemas, claro, expectativas não atendidas, assim como ele deve ter as dele. Mas será que isso não é sinal de maturidade? Administrar as expectativas em detrimento de algo maior?
Acho que sim. Talvez essa seja a grande lição.
Porque achava estranho o fato de que mesmo namorando alguém que mora longe e que não controlo os passos ainda assim consegui ter uma performance outstanding aprovando duas campanhas com louvor com um cliente difícil. Era ainda mais estranho conseguir resistir o dia inteiro sem falar com ele o tempo todo. E mais incrível que eu conseguisse entender que aquilo tudo não era ansiedade e sim o peso da saudade. Uma sensação gostosa e uma boca brilhante com um gostinho doce que me acorda nas manhãs que dormimos juntos.
Porque gostamos de dormir abraçados, sabe? Foi assim que o beijo rolou, lembra?
E daí eu entendi que de estranho não tinha nada. Que o estranho era ficar obcecado e desconfiado, ativar a defensiva e achar que ninguém presta. E isso aconteceu todas as outras vezes. Acho que nunca estive verdadeiramente em um relacionamento.
Por isso agora é diferente. Esse relacionamento me dá vontade de crescer, de ganhar chão, de ser o melhor publicitário do mundo. Porque preciso do dinheiro! Porque ele ouve quando conto os dilemas dos meus clientes e os meus próprios dilemas de pegar um produto bosta e transformá-lo num must have no intervalo de Viver a Vida.
E é verdade gente, ELE OUVE QUANDO EU CONTO! Assim como eu adoro todas as vezes que ele tira as minhas dúvidas sobre os pratos sofisticados que ele sabe fazer e que eu não tenho idéia de como faz. Assim como ontem à noite levei meu laptop para a cozinha e deixei ele me observar na webcam enquanto cozinhava. E eu observava ele enquanto ele cozinhava no restaurante, vestido de chef, com o chapéu caído do lado, olhos azuis e barba feita.
Quinta-feira passada ele chegou em São Paulo para passar o feriado do Dia da Consciência Negra comigo. Naquele dia à noite cheguei cansado do trabalho e deitei no sofá da sala. Ele levantou e deitou sobre mim enquanto eu reclamava sobre o dia corrido. A campainha toca e Mari entra, diz que tem que ir para o litoral com o namorado, mas teme o trânsito, então decidiu fazer uma horinha.
No fim, Mari acabou não indo para o litoral. O namorado dela e o irmão dele foram lá para casa. Meu irmão chegou pouco depois. Pedimos três pizzas e ficamos conversando na sala. Comemos, rimos. Mari e o namorado nas poltronas, eu e g.boy no sofá, meu irmão e o cunhado de Mari nas cadeiras. Em roda, falamos bosta a noite inteira. Quando todos foram embora, já na noite alta, continuamos eu e g.boy conversando sobre a vida.
Duas coisas naquela noite que nunca aconteceram comigo: uma reunião daquele tipo e um namorado que conversa. Isso porque ele diz que é quieto, mas que não entende porque comigo é diferente.
Se alguém souber o por quê, eu ia adorar saber! ;-P
Entendi nesse mês que um relacionamento não é TER alguém, TER um namorado ou SER paparicado ou SE SENTIR amado. Isso tudo é egoísta demais e não leva a um relacionamento saudável, muito menos duradouro. E todos os meus relacionamentos até então foram assim.
Na verdade, e eis aqui o grande segredo, ter um relacionamento é querer conhecer a pessoa na mais profunda intimidade. É uma curiosidade natural. É querer que ela cresça, seja feliz, conquiste tudo aquilo que almeja. E estar ao lado dela para dar suporte e transformar os objetivos dela nos nossos objetivos. Claro, admitindo que ela entenda isso também e concilie os objetivos dela com os seus.
Estamos tentando fazer isso e confesso que é mais legal. É melhor que ficar mal e desconfiando de tudo. Minha terapeuta acha que essa teoria toda define outra coisa, um sentimento. Eu ainda não sei se é exatamente nos moldes do que ela diz. Mas que eu quero muito que aquele moleque gostoso, lá longe, se torne o melhor chef do mundo. Ah, isso eu quero!
domingo, 22 de novembro de 2009
E eu entendi tudo...
- Então vamos agora, você só tem 13 minutos até o ônibus sair... Tem uma banca aqui atrás.
- Acho que eu quero comprar um livro. Não vou conseguir dormir no ônibus.
...
- Quero olhar a outra banca.
- Vamos lá então.
...
- Escolheu?
- O Ladrão de Raios.
- iQ leu esse livro, disse que é incrível...
- Então, por isso mesmo... Tem muita coisa de mitologia nele.
- É, por isso ele adorou.
...
- Vamos então?
- Vamos que o ônibus sai em três minutos.
...
- O ônibus tá na plataforma já...
- Mas não é na plataforma 30?
- Não, minha poltrona é a 30.
...
- Tchau Mike, a gente se fala logo mais...
- Tchau g.boy, me manda uma mensagem quando chegar...
...
E no caminho para casa finalmente eu entendi. Entendi tudinho. Tudinho.
Incrível.
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"Nothin' about you is typical
Nothin' about you's predictable
You got me all twisted and confused
(It's so new)
Up 'til now, I thought I knew love
Nothin' to lose and it's damaged 'cause
Pattern to fall as quick as I do
(But now)
Bridges are burning
Baby, I'm learning
A new way of thinking now
Love, I can see
Nothing will be
Just like it was
Is that because
Baby, hear me you're so unusual
Didn't anyone tell you, you're supposed to
Break my heart, I expect you to
So why haven't you?
Maybe you're not even human 'cause
Only an angel could be so unusual
Sweet surprise I could get used to
Unusual you
Been so many things when I was someone else
Boxer in the ring, trying to defend myself
And the private eye to see what's going on
(That's long gone)
When I'm with you, I can just be myself
You're always where you say you will be
Shocking cuz I never knew love like this
Could exist
Tables are turning
My heart is soaring
You'll never let me down
Answer my call
Here after all
Never met anyone
Like you
Baby, hear me you're so unusual
Didn't anyone tell you, you're supposed to
Break my heart, I expect you to
So why haven't you?
Maybe you're not even human 'cause
Only an angel could be so unusual
Sweet surprise I could get used to
Unusual you
Can't believe that I
Almost didn't try
When you called my name
Now everything has changed
Didn't anyone tell you, you're supposed to
Break my heart, I expect you to
So why haven't you?
Maybe you're not even human 'cause
Only an angel could be so unusual
Sweet surprise I could get used to
Unusual you..."
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A parte mais difícil
E a parte mais difícil...
Foi se desprender, foi nunca mais fazer parte...
Essa foi a parte mais difícil...
E a coisa mais estranha era ficar esperando o telefone tocar...
Era o começo mais estranho...
Eu sentia enquanto engolia...
Um agridoce que sentia na boca...
Existe luz atrás das nuvens negras?
Eu me pergunto, o que é isso?
E a parte mais difícil era mesmo desapegar...
Não fazer mais parte...
Você partiu meu coração de vez...
E eu até tentava cantar...
Mas nada vinha à minha mente...
Isso sim era o mais difícil...
E conseguia sentir enquanto engolia...
Você deixou o sabor mais doce na minha boca...
É sua luz atrás daquelas nuvens?
E eu me pergunto, não entendo, o que é isso que está acontecendo?
Tudo que eu sei está errado.
Tudo que eu faço simplesmente termina inacabado.
E tudo está rasgado e do avesso.
É, na verdade, essa é a parte mais difícil.
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Incrível como essa música mexe comigo. Há anos.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
For Real
Depois de sete anos de amizade, uma amizade intensa, g.boy veio para São Paulo e finalmente nos encontramos. Sete anos depois! Eu abri este blog por causa do blog dele! Eu já conhecia aquele rosto de cor e salteado, tenho muitas fotos dele desde quando tínhamos apenas 17 anos e conversávamos pelo MSN por horas. Inúmeros posts escrevi falando dele nos quase sete anos de blog, e ele fez o mesmo.
Nossa amizade sempre foi deliciosa, era uma coisa mais de afeto e cumplicidade. Nunca fizemos putaria nenhuma por webcam e agregados e nunca nos consideramos (tirando um comentário aqui e ali) namorados virtuais. Acho que nós dois nunca acreditamos muito nisso.
A questão é que ele sempre foi mais pró-ativo do que eu nesse lance da gente se encontrar. Quando ainda morava na cidade menor ele chegou a ir com amigos na cidade maior e eu mesmo logo arrumei algo para fazer só para não encontrá-lo. Eu tinha muito medo. Nossa relação, por internet e telefone, era incrível. Será que resistiria ao encontro?
Eu sabia que não. Talvez não por ele, mas por mim. Pessoalmente, sou uma pessoa muito extrovertida, ousada, atirada, sem pregas na língua, sem filtro. Mas, por incrível que pareça, sou incrivelmente tímido e a beleza dele sempre me deixava um pouco inseguro sobre o que sentiria. Conhecia o seu interior, conhecia sua capacidade de se relacionar comigo, era fissurado naquele cara e ter ele tão próximo, envolver sentidos extras que não apenas visão e audição, me conhecendo do jeito que me conheço, sei que ia dar merda.
No entanto, naquela terça-feira, dia 20 de outubro, exatos dois anos após o término definitivo do meu relacionamento com A., quando ele me disse que viria para São Paulo, não tive outra escolha senão oferecer minha casa. Pela primeira vez fiz aquilo sem pensar. Não estava com medo. No fundo, eu precisava da presença dele. Ele era uma das poucas referências do que eu precisava naquele momento. O tipo de amigo que ele representava. Era aquilo ali mesmo que eu queria.
Apesar do combinado (ele ia dormir em casa do domingo para segunda), ele chegou antes, no sábado. Fui pegar ele de carro em um posto de gasolina perto do metrô (o bonitão quis dar um de independente e se perdeu) e diferente de quase 100% dos encontros do gênero, ele era exatamente o que eu conhecia dele. Quando o vi de pé, ao vivo, me esperando, aqueles olhos claros, aquele sorriso meio perdido, meio assustado com o volume de carros, meio que me constatando também, sabia que estava do lado de um amigo.
Ele entrou no carro e eu desatei a falar. Falei, falei, falei... Entramos na garagem do prédio, falei, falei, falei... Entramos no apartamento, falei, falei... E ele me esperando para um abraço, de pé, daquele que demoramos tanto para dar. Finalmente ele estava ali, de carne e osso. Finalmente eu estava ali, de carne e osso.
E ele conheceu meu irmão. Assim que ele virava as costas meu irmão já me olhava com aquele olhar de "Meu Deus do Céu, o que é isso que você trouxe aqui para casa!". E cada comentário ou indireta dele, cada vez que ele sutilmente elogiava meu sorriso, meu irmão me olhava com admiração. Algo como "então você conhece caras que prestam também, não só idiotas como o A.".
Meu irmão sempre odiou todos os caras que eu tinha algo. A. especialmente. g.boy era a primeira aprovação histórica. Bem o cara que eu NÃO estava pegando.
Apesar de planos para ir à Bubu, acabamos boicotando a balada e ficamos conversando, nós dois no quarto, até as cinco da manhã.
Completamente bizarro, diga-se de passagem.
Bizarro porque aquela euforia e desconforto de conhecer alguém pessoalmente que você já se relacionava on-line não aconteceu. Bizarro porque conversávamos num fluxo contínuo e nem vimos a hora passar. Simplesmente esquecemos de comer, de ir para a balada. Eu estava com a roupa da balada! E mais bizarro ainda porque da hora que eu vi aquele sorriso no posto de gasolina em diante eu senti o mesmo que senti quando vi a foto dele pessoalmente.
Na época eu era um menino caipira de 17 anos.
Virei novamente esse menino caipira.
E fiquei hipnotizado pelo jeito dele, pelos olhos dele, pelo sorriso dele. Ficamos na cama conversando até cair no sono. Ele pegou no sono antes de mim e eu aproveitei aquele momento para o ver dormir, refletir sobre o quão importante ele tinha sido em uma fase inteira da minha adolescência. Quer dizer, eu tentei fazer isso, né? Tudo que eu queria era dar um beijo nele ali mesmo, mas sei lá, achei melhor evitar.
Estava inseguro. Tinha medo de arruinar tudo aquilo que a gente construiu, a confiança que a gente tinha um no outro, a ilha segura que éramos quando precisávamos correr.
No outro dia tudo maravilhoso. Almoçamos no América (meu irmão, g.boy e eu), passamos pela Fnac, depois Shopping Iguatemi, ele me pagou um sorvete, meu irmão foi embora, assistimos um filme no cinema (e eu, bobão, guardei os ingressos ;-P) e até então só conversávamos. Aquela altura estava completamente entregue. Cada vez que o telefone dele tocava, algum amigo de São Paulo o chamando para fazer algo, meu coração pulava, me sentia desconcertado. Não queria que ele fosse, queria que ele ficasse comigo. Mas ao mesmo tempo sabia que ele não vinha sempre para cá e que ele tinha que sair, viver um pouco de São Paulo.
Então guardava tudo no peito. Quieto.
A noite, nós dois nos quartos, ele me perguntou se eu me importava dele sair com os amigos e eu disse que não (mentira!) e depois ele começou a mexer nas minhas fotos e juntos fizemos um tour por quase seis mil fotos. Ele ia tudo atentamente. Eu dizia que aquilo tudo era um saco, ele me contava que sempre tivera curiosidade de ver tudo aquilo.
As amigas do meu irmão estavam em casa e, quando via ele, me olhavam questionando se eu tinha ficado com ele. Quando eu dizia que não, que era apenas um velho amigo, elas ficavam inconformadas. Até g.boy entrar na sala e elas abrirem aquele sorriso como quem discute amenidades. E de repente ele me diz que resolveu não ir, que resolveu ficar em casa, que estava cansado. Que queria só deitar e conversar.
Ao longo desse mesmo dia ele recebeu a notícia de que só precisava voltar na terça. Ficaria mais um dia em casa.
Deitamos na cama e continuamos a conversa. E viajamos, fomos muito longe. Lembramos da infância, da primeira vez que vimos a foto um do outro, de como imaginávamos aquele encontro, como fantasiamos mais de uma vez e como um dia chegamos a achar que talvez nunca acontecesse. E caímos no sono novamente, na mesma cama, enquanto conversávamos.
De madrugada eu despertei. Estávamos abraçados. Meu coração bateu forte. Em um segundo passou tudo pela minha cabeça. O rosto dele estava tão próximo, a perna dele enganchada na minha, eu deitado com a cabeça sobre o braço dele e jogando meu braço sobre o corpo dele. Era tão inocente. Ele respirava fundo, ainda estava dormindo.
E de repente senti, mais forte do que nunca, uma sensação muito estranha. Tinha sentido isso com 17 anos quando abri aquele primeiro e-mail com foto, tinha sentido isso quando o vi perdido naquele posto. Tinha sentido isso em alguns momentos ao longo do fim-de-semana. Um magnetismo, algo me puxava para ele, eu queria abraçar ele, eu queria beijá-lo, queria saber que gosto tinha.
Não era sexual. Era outra coisa.
Meu coração disparou. Pensei nas conseqüências. E se ele não quisesse? E se ele me empurrasse. E se aquilo tudo acabasse com sete anos de amizade. Círculo de confiança quebrado. E agora, MEU DEUS, e agora?
E de repente eu percebi que aquela amizade já estava destruída. Poxa vida! Eu estava abraçado com ele. Estava vestindo apenas cueca e camiseta. O nariz dele encostava-se ao meu. Tudo que não tivemos coragem de fazer enquanto acordados o subconsciente fez durante o sono. Mas para o próximo passo acontecer, somente acordado. Decidi naquela hora que se não tomasse uma atitude, iria me arrepender pelo resto da vida. A hipótese de não fazer nada simplesmente evaporou da minha mente. Eu queria. Eu simplesmente PRECISAVA sentir a boca dele.
E de repente a respiração dele mudou. Ele tinha despertado também. Sem abrir os olhos ele manteve a cabeça dele exatamente onde estava.
Eu fiz um movimento leve, a cabeça dele pendeu e ficou mais próxima.
Eu aproximei meu nariz do rosto dele e puxei forte o ar. Senti o seu cheirinho adocicado, meu corpo todo arrepiava.
Beijei-o de leve perto da boca, ainda com os olhos fechados. E senti seu cheiro novamente, e outro beijinho dele leve em seu rosto.
E ele continou ali, imóvel.
Então eu cheguei bem perto e beijei sua boca de leve. Ele abriu os lábios e retribuiu o beijo. E de repente estávamos nos beijando, não tinha mais nada na minha cabeça. Durante dois ou três minutos o beijo cresceu e se tornou numa corrida. Uma corrida em busca de sete anos perdidos. Foi isso que eu senti: sete anos eu guardei aquele beijo. Foi um dos melhores beijos que já dei em alguém. Quando aqueles dois minutos acabaram, nos olhamos.
Eu estava apaixonado.
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Dali em diante muita coisa aconteceu. Não transamos naquele fim-de-semana. Nem chegamos perto! E eu fui para a cidade dele no fim-de-semana seguinte e começamos a namorar. E somente dois dias depois que conversamos sobre o namoro finalmente transamos.
Tudo muito diferente de todos os meus relacionamentos anteriores. O g.boy era familiar. Eu o conhecia, conhecia as etapas que ele tinha passado, sua beleza incrível, seu talento nato e sua vontade de trabalhar incansavelmente, de conquistar cada vez mais. Isso tudo o torna extremamente atraente para mim e agora estamos descobrindo os defeitos um do outro.
Confesso que essa fase, para mim, está sendo mais difícil. Sinto que ele lida melhor com a situação, ele é mais maduro que eu e já namorou à distância. Eu nem considerava essa hipótese, não acreditava nisso até "conhecer" ele. Depois que eu o conheci, simplesmente esse era o único caminho viável, não imaginava continuar minha vida aqui em São Paulo e ele lá. Eu estava fisgado. Minha sorte foi que ele também estava apaixonado.
Agora é assim que eu passo os dias. A gente se fala duas vezes por dia. Ele é chef num restaurante de lá e trabalha naqueles esquemas de restaurante, então estamos ajustando as datas de quando ele vem para cá e eu vou para lá. O mais difícil é não ver ele no fim do dia, porque sinto que temos uma ligação diferente. Nos outros relacionamentos, o fim do dia é um "job". Tem que chegar, tem que ser interessante, tem que ser incrível, tem que querer gastar uma fortuna e comer em algum lugar... Com ele não tem disso. A gente está cansado? A gente descansa. A gente quer assistir Friends, a gente assiste. A gente quer transar, a gente transa.
As poucas coisas que me incomodam é não ver todo dia (mas isso é condição nesse relacionamento e eu estou disposto a obedecer, já que temos a mesma idade e estamos em busca de crescer, ou seja, tanto ele é super ocupado lá quanto eu sou aqui) e as minhas ações. Às vezes sinto que sou meloso demais, ele se segura mais, é mais centrado que eu. Eu não quero ser tão meloso porque sinto que às vezes isso pesa. E não quero que ele se sinta pressionado, de maneira nenhuma. Combinamos em ter um namoro tranqüilo e o mais “cuca fresca” possível, pelo menos enquanto ele estiver por lá (ele sempre teve planos de vir para São Paulo), mas a saudade dói no peito, confesso.
Mas eu, bom, italianão, gosta da casa cheia, fala gritando, fala palavrão, imagina só! No último dia meu lá na cidade dele, quando terminei de arrumar a mala e o vi na cama, ainda me olhando, ao lado de toda a bagagem pronta para ser levada, enchi os olhos de lágrimas. Fim-de-semana incrível. It was over! Ele é muito mais maduro que eu, me abraçava e me pedia calma. Eu não fiz dramalhão, não fiquei chorando aos berros. Simplesmente me apoiei na janela e fumei um último cigarro em silêncio. Ele ficou ali me observando.
MAS POR QUÊ, MEU DEUS, EU TINHA QUE CHORAR SENDO QUE EM TODOS OS NAMOROS EU SEMPRE FUI UMA PEDRA!
Simples. Acho que dessa vez, it's for real.




